Anésia # 828

Minha avó Anésia era muito diferente da personagem que vocês conheceram nos quadrinhos. Ela sorria bastante, era flexível, gentil e generosa… feito a Dolores.
“Como é uma vida vivida assim, com graça, com simplicidade?” eu me perguntava. “Como é possível? Como ela consegue?”
Então um dia eu perguntei: Vó, a senhora tem medo de morrer?
Eu mal havia terminado a pergunta e ela, sem pensar um segundo, respondeu que “Não”. E depois, olhando para o nada, como quem reflete no que acabou de dizer, talvez buscando por uma justificativa para a resposta, disse “Eu não tenho medo nenhum”.
Como pode? Por que eu, com quase o dobro do tamanho e mais que o dobro do peso dela, muito mais força, graduado, metido a sabido ainda morro de medo da finitude da vida enquanto aquela velhinha cheia de dor, de limitações, que mal sabe ler, consegue ser tão corajosa? O que a vida ensinou pra ela que eu ainda não aprendi?
Minha avó nos deixou aos pouquinhos. Uma partida cuidadosa. Cuidadosa como só ela sabia ser. Para mim, ela ensinou que a simplicidade é um caminho possível para a felicidade. Me ensinou sobre ter empatia com os mais velhos. E por fim, me deixou uma lição – no sentido literal mesmo, quase um exercício: daqui pra frente, todas as vezes que a finitude da vida me deixar angustiado, eu quero lembrar da minha avó, pequena, frágil, mas serena e corajosa. Lembrar dela vai me deixar em paz.

55 comentários em “Anésia # 828

  1. Medo ela não tinha, mas com certeza tinha um orgulho danado do neto que a eternizou nos quadrinhos. Sempre vamos ter um carinho especial pelas suas avós. Meus sentimentos pela sua perda..

  2. Minha avó partiu de um jeito muito especial: foi como um passarinho cujo coração foi reduzindo batimentos até parar…aos 104 anos. Dona de uma sabedoria que desconhecia, foi criada, desde sempre, para ser uma mulher literalmente, domesticada. Não saia tampouco a levavam para um passeio ao sol, mas ela tinha um segredo: desde pequena lia escondido. Já adulta continuou a ler tudo que aparecia, e se dedicava especificamente a conteúdo jornalistico da mais alta qualidade…pegava emprestado da vizinhança “Veja”, “Isto é” e “Jornal do Brasil”, lia rapidinho e depois devolvia…já se imaginou tendo que ler escondido ? “Poizé” ! Apesar disso não era revoltada, magoada ou rebelde. A pessoa mais especial que conheci. Que minha vó Zenólia esteja de braços dados com D. Anésia.

  3. Que lindo texto sobre a Dª Anésia da vida real. ♥️ Minha avó também partiu este ano e me deixou com a mesma pergunta: o que ela sabia de cór e salteado que eu não aprendi ❓

  4. Que pena! Primeiro a vó Heloísa e agora a vó Anésia! Eu perdi minha avó na pandemia. Foi muito triste. Não importa quanto tempo passamos com uma pessoa de que gostamos. Nunca é suficiente. Mas temos de aguentar, não é?

  5. Meus sentimentos Will… mas uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais se lembra dela e tenho certeza de que você nunca deixará ela ser esquecida!! Parabéns pelos quadrinhos e que a vida te conforte o sentimento de perda…

  6. Will, meus sentimentos e que Deus conforte você e toda a sua família.
    E obrigado por compartilhar conosco esse momento tão delicado e essa lição sobre a finitude da vida. Ela vai está para sempre no seu coração.
    Um forte abraço.

  7. E a Vovó Anésia (a da não-ficção) deixou uma das maiores lições: não há do que ter medo. Só se vive (esta vida) uma vez, mas a alma é imortal.

  8. Que homenagem linda! Sinto muito por essa perda. Obrigada por dividir conosco essa lição muito bonita de tentar não ter medo da finitude nem de nada! Viva a Anésia! Força pra voce Will!

  9. Quando entrei no meu site de tirinhas favorito, aproveitando o descanso entre um exercício e outro na academia, esperava algo que me trouxesse um sorriso, como sua arte raramente falha em fazer nos anos em que te acompanho. Em vez disso, tive que disfarçar a lágrima. Bela homenagem. É claro o quanto ela foi importante para você, e o quanto continuará sendo. Quase 95 anos é uma idade muito respeitável, embora espere não ter entendido certo o “nos deixou aos pouquinhos”. Seja como for, sinto muito, meu caro, pela sua perda.

  10. Meus sentimentos Will. Confesso que quando vi a tira fiquei sem ação, mesmo tendo contato somente à personagem, através do seu trabalho. Que Deus conforte a todos vocês e a coloque em um bom lugar.

  11. Caiu um cisco aqui… linda mensagem.

    Rapaz, vendo esse post na hora eu lembrei de sua outra vó Heloísa, fui caçar aqui e achei na página 14 da seção da Anésia. Ela se foi no mesmo dia e mês, 11/07, há 3 anos! Que coisa.

    Meus sentimentos Will.
    Abraços.

  12. Meus profundos sentimentos a você e toda sua família, Will. Em certa medida, Vó Anésia tornou-se a avó de muitos de nós que acompanhamos seu trabalho.

  13. Oi Will, queria deixar um abraço. Sinto muito pela perda, e quero dizer que não só os quadrinhos dela, mas os seus tocaram muito a minha vida. Meus pesames, e toma o tempo que precisar pra ti.

  14. Poxa vida, abri o site pra aquecer o coração e dar umas risadas e aqueci foi o coração pelo seu texto, apesar do baque da notícia. Meus sentimentos, Will! Anésia foi muito amada e admirada por nós todos, e isso é muito bonito! ♥

  15. Coisa linda essa homenagem! Sigo seu trabalho já tem um bom tempo e acompanhei o seu crescimento ao longo dos anos. Meus sentimentos e muita força nesse momento!

  16. Meus sentimentos Will, para você e sua família. Quem acompanha o seu trabalho há tanto tempo sabe como a sua avó tinha um papel importante na sua vida. Forte abraço.

  17. Acompanho aqui a tantos anos seus quadrinhos que a Anésia era quase da família, sempre me fez lembrar do meu falecido pai. Sua obra me levava de volta ao tempo e se misturava com as lembranças cada vez mais distantes dele, mais seu trabalho sempre me trazia de volta a esse sentimento. Acredito que seja assim para todos nós que acompanhamos você, cada um deve ter uma dona Anésia no coração. Obrigado Will por compartilhar com a gente e nos fazer sentir parte da família. Meus sinceros sentimentos a você e todos os familiares.

  18. Meus profundos sentimentos ! Que Deus acolha a sua alma com ternura ! E parabéns por vc homenageala de uma forma tão carinhosa todos os dias !
    Sucesso !

  19. Desapego, meu caro. A vida lhe ensinou o desapego.
    Eu, com meus míseros 50 anos, aprendi o que é isso quando decidir virar nômade, aos 42. Quando me desfiz de absolutamente tudo o que havia conquistado pra viver mais leve, na estrada (escrevi um livro sobre isso – se me permite a propaganda rsrs)

    A entrega da alma nos deixa “corajosos” e eu adoro a etimologia dessa palavra. Tudo faz sentido.

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