Anésia # 828

Minha avó Anésia era muito diferente da personagem que vocês conheceram nos quadrinhos. Ela sorria bastante, era flexível, gentil e generosa… feito a Dolores.
“Como é uma vida vivida assim, com graça, com simplicidade?” eu me perguntava. “Como é possível? Como ela consegue?”
Então um dia eu perguntei: Vó, a senhora tem medo de morrer?
Eu mal havia terminado a pergunta e ela, sem pensar um segundo, respondeu que “Não”. E depois, olhando para o nada, como quem reflete no que acabou de dizer, talvez buscando por uma justificativa para a resposta, disse “Eu não tenho medo nenhum”.
Como pode? Por que eu, com quase o dobro do tamanho e mais que o dobro do peso dela, muito mais força, graduado, metido a sabido ainda morro de medo da finitude da vida enquanto aquela velhinha cheia de dor, de limitações, que mal sabe ler, consegue ser tão corajosa? O que a vida ensinou pra ela que eu ainda não aprendi?
Minha avó nos deixou aos pouquinhos. Uma partida cuidadosa. Cuidadosa como só ela sabia ser. Para mim, ela ensinou que a simplicidade é um caminho possível para a felicidade. Me ensinou sobre ter empatia com os mais velhos. E por fim, me deixou uma lição – no sentido literal mesmo, quase um exercício: daqui pra frente, todas as vezes que a finitude da vida me deixar angustiado, eu quero lembrar da minha avó, pequena, frágil, mas serena e corajosa. Lembrar dela vai me deixar em paz.

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